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segunda-feira, 1 de março de 2010

Castedo

Adeus jurados de Murça,
Testemunha do Castedo,
Agora vou degredado,
Vou pagar o que não devo.
Adeus, adeus ó castedo,
Cada bairro tem seu baixo,
Trinta e cinco testemunhas,
Contra mim juraram falso.

Adeus, adeus ó Castedo,
No meio tem um calhau,
Dizeis que eu matei meu pai,
Com bolos de bacalhau.

Adeus, adeus ó Castedo,
No meio tem uma eira,
Dizeis que eu matei meu pai,
-Com uma faca brasileira,

Adeus. Adeus ó Castedo,
No meio tem um chorão,
Adeus ó Ana Maria,
Prenda do meu coração.

Adeus, adeus ó Castedo,
No meio tem uma poça,
Dizeis que eu matei meu pai,
Quem o matou foi a moça.

Adeus, adeus ó castedo,
Rodeado de negrilhos,
Adeus ó Ana Maria,
Trata-me bem os meus filhos.

Á saída do Castedo,
Olhei para trás e vi,
A minha mulher de luto
Não sei com não morri.
Narminda

-Bom-dia senhor morais,
Bom-dia lhe venho dar.
Venho-lhe pedir a filha,
Se o senhor ma quiser dar,
-Ainda me pedes a filha
Ó maroto descarado,
Minha filha não a dou,
Para as mãos de um desgraçado,

- Se me não dá sua filha,
A culpa tive-a eu,
Gozam-lhe outros a rama,
Pois o fruto comi-o eu.

A mãe que aquilo ouviu,
Logo se pôs a chorar,
Foi dar com sua filha,
Numa janela a cantar

-Minha mãe vou para a viela
Na viela há boa gente,
Se alguma coisa houver,
O meu corpo é que o sente.


-Tu para a viela não vás,
Não queiras lá o teu nome,
Antes quero ver casada,
Nem que seja com outro homem.

O hospital de Lamego,
Trinta metros tem de altura,
No espelho do hospital,
Vejo a minha formosura.

-No espelho do hospital,
Vejo a minha formosura.
Diga-me senhor doutor,
Se o meu mal ainda tem cura.

-O seu mal já não tem cura,
O seu mal é mal venero,
O seu mal já só tem cura,
Quando for para o cemitério.

As camas do hospital,
São trinta bem as contei,
Deitadinha numa delas,
Muita lágrima chorei.

-Chorai fadistas chorai
Que Narminda já morreu.
Era a cara mais bonita
Que na má vida apareceu.

Saloia


Era uma saloia,
Pela rua acima,
Com uma cesta de ovos,
Com uma sesta de ovos,
E a galinha em cima,
Ó mulher dos ovos,
Quanto quer por eles,
Quero cinco croas,
Quero cinco croas,
Que é o preço deles.
Ó mulher dos ovos,
Suba cá para cima,
Ao subir a rua,
Ao virar a esquina,
Quebraram-se os ovos,
Fugiu a galinha.
Ao chegar ao outeiro,
Pila, pila, pila,
Quanto mais chamava,
Quanto mais chamava,
Quanto mais chamava,
Mais foge a galinha
.
Joaquininha

Ó joaquininha,
Ó joaquininha
Trás daquele outeiro,
Anda de namoro,
Anda de namoro,
Lá com um carpinteiro.
Carpinteiro não,
Carpinteiro não,
Que me tranca a porta,
Antes soldadinho,
Antes soldadinho
Que marcha na tropa,
Soldadinho não,
Soldadinho não
Que não sabe marchar,
Antes barbeirinho,
Antes barbeirinho,
Que sabe barbear.
Barbeirinho não,
Barbeirinho não,
Que é muito lambão,
Antes lavrador,
Antes lavrador,
Que trabalha o pão.

Noitadas de Coimbra

As noitadas de Coimbra,
Eu tenho saudades tuas,
O chorar das guitarradas,
Gemendo fado nas ruas.

Coimbra nobre Coimbra,
Coimbra dos estudantes,
Vão para lá tão inocentes
Vêem de lá tão extravagantes.

Coimbra nobre Coimbra,
Onde se formam doutores,
Também lá foram formados,
Os meus primeiros amores.

Se Coimbra fosse minha,
Como é dos estudantes,
Mandava-lhe por no meio,
Um jardim de diamantes.

Bela sai à janela

Oai Bela sai à janela,
Deita cabelos à rua,
Desejava levar na guitarra,
Uma recordação tua.

Oai, bela sai á janela,
Dias há que te não vi,
Eu quero ver a resposta,
Da carta que te escrevi.

A carta que me escreveste,
Deram os meus pais com ela,
Eu morro de saudades,
Nunca mais vou á janela.

Nunca mais vou à janela,
Nunca mais vou ao balcão,
Quebrei as guitas à guitarra,
E as cordas ao violão.
O Santo do Algarve

Foi no Algarve em Olhão,
Parece mentira mas não,
O caso que eu vou narrar.
Esteve um corpo enterrado,
Trinta e três anos passados,
Sem nada lhe ter tocado,
É caso de admirar.

Pois tinha ela a mãe razão,
Ao dizer do coração,
Que ao morrer, morrera um santo.
Trinta e três anos passados,
Sem nada lhe ter tocado,
Causa ao mundo muito espanto.

Seus cabelos que cresceram,
Deveras não morreram,
Davam para entrançar,
E o fato e o calçado,
Tudo tão bem conservado,
É caso de admirar.

Disse ela quando morrer,
Que o seu maior prazer,
Seja o desejo satisfeito,
Do corpo a sua ossada,
Quer ser ela acompanhada,
Metam-lha no caixão com jeito.

Pobre mãe chegou-lhe a hora,
Coitada morreu agora,
Fugiu-lhe do olhar o brilho.
Trinta e seis anos passados,
Seus restos mortais levados,
Para a companhia do filho.
Já o teu rosto beijei

Já dormi na tua cama,
Já o teu rosto beijei,
Já logrei os teus carinhos,
E mais coisinhas que eu sei.

Já que chorando nasci,
Tinha um ano gatinhava,
Tinha dois já eu andava,
Ao colo de minha mãe,

Tinha três adoeci,
Não sei como não morri
Pois já não era de mama
Aos quatro já tinha dama,
Aos cinco estou bem lembrado,
Sem precisar ser embalado,
Já dormi na tua cama.

Aos seis anos ia à missa,
Pelas mãos de minha mãe,
Aos sete lembra-me bem,
Como era a minha derriça,
Metia-me tal cobiça,
Quando os oito completei,
Aos nove então pensei,
Que havia de namorar,
Contigo pus-me a brincar,
Já o teu rosto beijei.

Quando onze anos tinha,
Já sabia o que eram amores,
Aos doze tomei calores,
Que me fizeram bem felizes,
Aos treze o destino quis,
Que nos fosse-mos amiguinhos,
Aos catorze alguns beijinhos,
Era esse o meu entento,
Aos quinze deu-se o momento,
Já logrei os teus carinhos.

Quando dezasseis anos tinha,
Disse logo de uma vez,
Aos dezassete talvez,
Que viesses a ser minha,
Aos dezoito me entretinha,
Com namoros que arranjei,
Aos dezanove então pensei,
Em dar-te toda a atenção.
Aos vinte apertei-te a mão
E mais coisinhas que eu sei.